Estado do Livro: Bem Conservado
Há livros que começam com batalhas. Outros com mortes. Este começa com espanto.
Um rei — jovem, poderoso e absolutamente desprevenido — descobre o corpo nu de uma mulher. E fica pasmado. Não pela carne em si, mas pelo mistério que ela revela. Decide então que quer ver nua a própria rainha. Pedido simples? Nem por isso. Em redor do trono levantam-se muralhas invisíveis: teólogos inquietos, inquisidores vigilantes, nobres alarmados, uma meretriz célebre, um jesuíta português prudente, uma madre superiora zelosa.
O que poderia ser apenas curiosidade transforma-se num delicado terremoto político e moral. A nudez deixa de ser corpo e passa a ser ideia. E ideias, como sabes, podem ser mais perigosas do que exércitos.
Com ironia subtil e inteligência luminosa, Gonzalo Torrente Ballester constrói um verdadeiro scherzo literário — leve na aparência, profundo na intenção. A corte move-se entre o cómico e o trágico, entre a fé e o medo, entre o desejo e a censura. E nós, leitores, sorrimos… mas reconhecemos ali algo intemporal: o eterno embaraço do poder diante do humano.
Um divertimento erudito, pitoresco e deliciosamente irreverente.